UE suspende importações de carne do Brasil a partir desta quinta
Decisão da Comissão Europeia atinge carne bovina, frango, ovos, mel e derivados de origem animal brasileiros e cita falta de garantias sobre uso de antibióticos na pecuária
Helena Krugdo CityTudo3 de setembro de 2026 · 6 min de leitura

A partir desta quinta-feira (3), a entrada de carne bovina, carne de aves, ovos e mel brasileiros está suspensa nos 27 países da União Europeia. Segundo apuração do G1, a decisão da Comissão Europeia afeta produtos de origem animal do Brasil depois que o país foi retirado, em maio, de uma lista de nações consideradas em conformidade com as regras europeias sobre uso de antimicrobianos na pecuária. A duração da medida vai depender de cada setor produtivo: a retomada pode ser mais rápida para aves e mel, caso a auditoria em andamento tenha resultado positivo, enquanto para a carne bovina o processo tende a ser mais demorado.
O que motivou a suspensão
A regulamentação da União Europeia proíbe o uso de antimicrobianos para estimular o crescimento de animais ou aumentar a produtividade dos rebanhos, além de vetar, na criação animal, determinados medicamentos reservados ao tratamento de infecções humanas. Essas regras fazem parte da estratégia europeia de combate à resistência antimicrobiana: segundo a Organização Mundial da Saúde, infecções resistentes a medicamentos são diretamente responsáveis por mais de um milhão de mortes por ano em todo o mundo, e a UE considera que o Brasil ainda não apresentou garantias suficientes de que toda a cadeia produtiva cumpre essas exigências.
A Comissão Europeia, no entanto, evita tratar o episódio como uma ruptura definitiva. Uma porta-voz do órgão disse ao G1 e à agência AFP que “o Brasil é um parceiro importante para a União Europeia, e estamos trabalhando de forma próxima […] com as autoridades brasileiras para garantir o cumprimento dessas exigências. Assim que essa conformidade for comprovada, as exportações para a UE poderão ser retomadas”.
Quais produtos entram na lista
Além da carne bovina e de frango, a suspensão alcança ovos, mel e tripas de origem brasileira. É um recorte amplo, que mistura setores com realidades bem diferentes: a avicultura e a apicultura têm auditorias específicas em curso, enquanto a pecuária de corte, que movimenta valores muito maiores em exportação, ainda não tem um processo de verificação com data definida.
Quando a suspensão pode acabar
A auditoria em curso sobre os setores de aves e mel deve ser concluída na sexta-feira (4); se os resultados forem satisfatórios e aprovados pelos países-membros da UE, as exportações desses dois produtos poderão ser retomadas nas próximas semanas. Já para a carne bovina, a Comissão Europeia informou que o processo pode levar mais tempo, já que a data em que o Brasil poderá comprovar conformidade varia conforme os ciclos de produção de cada espécie animal. Até o momento, Bruxelas não estabeleceu um cronograma geral para o fim da suspensão, e a retomada das importações vai depender das garantias que as autoridades brasileiras apresentarem para cada cadeia produtiva.
O que dizem os produtores e as entidades do setor
A reação no campo varia conforme o produto. O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, afirmou que o setor pode redirecionar a produção de frango destinada à Europa para o mercado interno e para os cerca de 150 países que já compram o produto brasileiro, caso o bloqueio não seja revertido ou se prolongue. “Já ficamos sem vender para a União Europeia quatro meses no ano passado, por causa da gripe aviária. […] O difícil seria se a gente ficasse sem o Oriente Médio”, destacou Santin, que espera que as exportações de frango para a UE sejam retomadas ainda neste ano.
Do lado da pecuária de corte, o produtor André Bartocci, de Mato Grosso do Sul, disse ao G1 que não usa antimicrobianos em seu rebanho há anos, mas explicou que a exigência da UE vai além da chamada cota Hilton, reservada a cortes nobres. “Quem faz cota Hilton não usa antimicrobiano há muito tempo. Mas a maioria da carne que vai para a Europa não é Hilton, é lista Trace, uma categoria em que o produtor só precisa comprovar que não usou antimicrobiano nos últimos 100 dias de vida do animal. Agora vai mudar, todo o ciclo vai precisar de comprovação”, disse Bartocci.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) informou que 100% das empresas associadas e habilitadas para exportar à UE já aderiram a um novo protocolo de rastreabilidade, desenvolvido em parceria com a Associação Brasileira das Certificadoras por Auditoria e Rastreabilidade, mas que o bloco europeu ainda não reverteu sua decisão. A entidade trata o novo cenário com “preocupação”: embora a UE responda por apenas 5,8% das exportações brasileiras de carne bovina, o bloco é um “mercado estratégico” por comprar cortes nobres, de “alto valor agregado”. “A carne bovina brasileira seguirá sendo comercializada nos mercados para os quais estiver habilitada, mas não há substituição automática do mercado europeu, uma vez que diferentes destinos demandam produtos e cortes distintos”, disse a entidade em nota, acrescentando que a prioridade é contribuir para restabelecer o fluxo comercial “no menor prazo possível”.
O setor apícola, menor em volume mas com crescimento recente, também sente o impacto. Segundo o presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), Renato Azevedo, as vendas de mel para a UE vinham crescendo por causa do tarifaço imposto pelos Estados Unidos: com a sobretaxa americana encarecendo as exportações para lá, produtores redirecionaram parte do mel para a Europa, e as vendas ao bloco chegaram a dobrar no primeiro semestre deste ano, somando US$ 6,3 milhões. “O veto da UE acabou sendo um balde de água fria nos esforços dos exportadores, que já estavam colhendo frutos de um trabalho de ampliação de mercado”, afirmou Azevedo.
Quanto pesa o mercado europeu para o Brasil
O impacto financeiro direto é significativo, ainda que concentrado em produtos de maior valor agregado. Em 2025, o Brasil foi o segundo maior exportador de carne bovina para a União Europeia, com mais de 92 mil toneladas vendidas e valor superior a 713 milhões de euros, o equivalente a cerca de R$ 4,3 bilhões. A suspensão também chega em um momento delicado para a relação comercial entre os dois blocos: a decisão ocorre poucos meses depois da entrada em vigor, em maio, do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, assinado em janeiro e alvo de fortes críticas do setor agrícola europeu e do governo francês, especialmente quanto ao cumprimento de padrões sanitários e ambientais para produtos importados.
Próximos passos
O calendário mais próximo é o de sexta-feira (4), quando sai o resultado da auditoria sobre frango e mel, o primeiro sinal concreto de que parte da suspensão pode começar a ser revertida ainda em setembro. Para a carne bovina, que soma o maior valor exportado e envolve uma cadeia de produção mais longa, produtores e entidades como a Abiec seguem sem um prazo oficial da Comissão Europeia, e a expectativa do setor é que as negociações técnicas entre Brasília e Bruxelas avancem nas próximas semanas para destravar também esse mercado.
Enquanto isso não acontece, a orientação das entidades ouvidas é seguir vendendo para os mais de 150 países que já compram carne, frango e mel brasileiros, sem esperar uma substituição automática e imediata do mercado europeu. É um lembrete de que, mesmo quando um destino específico representa uma fatia pequena do total exportado, como os 5,8% da carne bovina que vão para a UE, ele pode concentrar os cortes e produtos mais valorizados, o que torna qualquer suspensão, mesmo temporária, sentida com força por quem depende diretamente desse comércio.


