Peptídeos emagrecedores: o que são, como agem no corpo e guia por medicamento
GLP-1, GIP e glucagon: entenda os hormônios por trás de Ozempic, Mounjaro e da nova geração de medicamentos para emagrecimento, com um panorama de cada substância já aprovada ou em estudo
Cecília Pradodo CityTudo25 de agosto de 2026 · Atualizado em · 5 min de leitura

Nos últimos anos, um punhado de siglas passou a fazer parte do vocabulário de quem acompanha notícias sobre saúde: GLP-1, GIP, glucagon. Elas são a base científica de uma classe de medicamentos injetáveis que mudou o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, e que segue crescendo com novos nomes chegando ao mercado ou a estudos clínicos avançados. Entender como esses peptídeos agem no corpo ajuda a separar o que é ciência do que é modismo nas redes sociais.
O que são os peptídeos emagrecedores
Peptídeos são pequenas cadeias de aminoácidos que o corpo já produz naturalmente para regular funções como apetite, digestão e metabolismo. Os medicamentos dessa classe são versões sintéticas, de ação prolongada, desenhadas para imitar ou potencializar hormônios que o próprio organismo libera após as refeições. Em vez de mascarar a fome com estimulantes, eles atuam diretamente nos mecanismos biológicos que controlam saciedade, esvaziamento gástrico e uso de energia.
GLP-1: o hormônio que inaugurou essa classe
O GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1) é produzido pelas células L do intestino delgado e do cólon, e é liberado principalmente depois das refeições. Segundo explicações médicas sobre o mecanismo desses hormônios no controle de peso, o GLP-1 age no hipotálamo reduzindo a sensação de fome, retarda o esvaziamento do estômago (o que prolonga a saciedade) e melhora a secreção de insulina pelo pâncreas. Foi esse mecanismo que deu origem à semaglutida, princípio ativo de Ozempic e Wegovy, hoje comparada em estudos diretos a peptídeos mais novos, como mostra o comparativo entre semaglutida e tirzepatida no estudo SURMOUNT-5.
GIP: a segunda peça do quebra-cabeça
O GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose) é produzido pelas células K do intestino e atua de forma diferente do GLP-1. De acordo com a Eli Lilly, fabricante de medicamentos que combinam os dois hormônios, o GIP age no sistema de recompensa do cérebro e também influencia diretamente a adipogênese e o metabolismo da gordura. Agonistas duplos de GLP-1 e GIP, como a tirzepatida, tendem a provocar menos náusea do que remédios que atuam só no GLP-1, além de um efeito mais forte sobre a composição corporal.
Glucagon: a aposta mais recente contra a gordura
A geração mais nova de peptídeos soma ainda o receptor de glucagon (GCGR) à combinação. O glucagon tem ação lipolítica e termogênica, ou seja, ajuda a mobilizar a gordura armazenada nos adipócitos e a aumentar o gasto calórico basal do corpo. É esse terceiro mecanismo que sustenta remédios experimentais como a retatrutida, que já mostrou perda de peso próxima de 30% em estudo de fase 3, e a survodutida, que combina apenas glucagon e GLP-1.
Guia rápido: o que cada peptídeo já mostrou
Com tantos nomes novos surgindo em estudos e no mercado, vale um panorama rápido de quem é quem nessa classe, já aprovada ou ainda em fase de estudo:
- Liraglutida — um dos primeiros agonistas de GLP-1 usados em larga escala, sob marcas como Victoza e Saxenda. Aplicação diária (diferente da maioria dos peptídeos mais recentes, que costumam ser semanais) e perda de peso mais modesta que a geração seguinte.
- Semaglutida — princípio ativo de Ozempic e Wegovy, age no receptor de GLP-1. No estudo SURMOUNT-5, teve perda média de 13,7% do peso em 72 semanas. Já existem genéricos aprovados pela Anvisa, restritos ao tratamento de diabetes tipo 2.
- Tirzepatida — presente no Mounjaro e no Zepbound, combina GLP-1 e GIP. Teve perda média de 20,2% do peso em 72 semanas no SURMOUNT-5. Antes de aplicar a caneta, vale seguir o guia de aplicação correta.
- Mazdutida — aprovada na China em 2025 pela Innovent com a Eli Lilly, combina GLP-1 e glucagon. Ainda sem registro nem previsão de chegada ao Brasil; o explicador completo sobre a mazdutida reúne mais detalhes, incluindo a comparação com a tirzepatida.
- Survodutida — da Boehringer Ingelheim com a Zealand Pharma, também combina GLP-1 e glucagon: perda média de 16,6% do peso e redução de 34% da gordura visceral em 76 semanas, segundo os estudos de fase 3 SYNCHRONIZE. Ainda investigacional, sem aprovação em nenhum mercado.
- Retatrutida — agonista triplo (GLP-1, GIP e glucagon) da Eli Lilly, com os resultados mais expressivos até agora: perda de até 31,9 kg em 80 semanas, segundo o estudo TRIUMPH-1. Também sem aprovação nem data de mercado.
Independentemente do peptídeo, aprovado ou ainda em estudo, o uso deve ser sempre acompanhado por um médico, que avalia o histórico de saúde de cada pessoa e o risco de efeitos colaterais — de náusea e diarreia, mais comuns, a sinais mais graves como dor abdominal intensa, que exige atenção médica imediata. A maioria desses remédios não deve ser usada apenas com foco estético, e sim dentro de um contexto terapêutico avaliado individualmente, como já discutido em por que não usar Mounjaro não faz ninguém “melhor” e por que parar de usar esses medicamentos sem mudar hábitos pode levar ao reganho de peso.
Por que essa classe de remédios virou febre
A combinação de resultados expressivos de perda de peso com aplicação semanal, mais prática do que comprimidos diários, explica boa parte da popularização dessa classe de medicamentos. O interesse cresceu tanto que remédios ainda não vendidos no Brasil, como a mazdutida, já geram buscas e comparações nas redes sociais antes mesmo de qualquer previsão oficial de chegada ao país.
O que considerar antes de usar
Apesar dos resultados, nenhum desses medicamentos deve ser usado sem prescrição e acompanhamento médico. A escolha do peptídeo mais adequado depende do histórico de saúde de cada pessoa, da presença de diabetes ou outras condições, e da avaliação de riscos e efeitos colaterais, que variam entre as substâncias. Para quem já usa ou pretende usar algum desses medicamentos, vale conferir também o guia sobre como aplicar corretamente a caneta injetável, sempre como conteúdo educativo, nunca como substituto da orientação de um profissional de saúde.
A perda de massa magra que acompanha o uso de peptídeos como a tirzepatida e a semaglutida também impulsionou uma nova frente de pesquisa: remédios que bloqueiam miostatina e activina para evitar justamente essa perda muscular, apelidados de “canetas para músculos”. Ainda em fase de testes, com chegada ao Brasil estimada só para 2028 ou 2029.


