Duda Salabert é agredida durante fiscalização de mineração ilegal
A deputada federal levou a pior ao flagrar extração irregular de minério na divisa entre Belo Horizonte e Nova Lima; ela teve luxação no ombro e suspeita de fratura, mas a Polícia Militar registrou o caso apenas como lesão corporal
Marina Kesslerdo CityTudo4 de setembro de 2026 · 5 min de leitura

A deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG) afirmou ter sido vítima de uma tentativa de homicídio na madrugada desta sexta-feira (4), durante uma fiscalização contra a extração ilegal de minério na divisa entre Belo Horizonte e Nova Lima, na Região Metropolitana da capital mineira. A parlamentar, que concorre à reeleição na Câmara em outubro, foi socorrida com escoriações pelo corpo e uma luxação no ombro direito, além de suspeita de fratura em um dos braços.
O que aconteceu na madrugada de sexta-feira
Segundo relatos da própria equipe da deputada, Duda Salabert estava acompanhada de assessores nas proximidades da alça de acesso a Nova Lima, um trecho conhecido pela recorrência de casos de furto e extração irregular de minério, quando avistou pessoas em atitude suspeita no local e começou a gravar um vídeo para documentar a possível atividade ilegal. Ao perceberem a filmagem, os homens teriam partido para cima da deputada e de um assessor de 44 anos que a acompanhava.
De acordo com a reconstituição divulgada pela BH 24 Horas, a dupla tentou fugir descendo uma ladeira, mas caiu e foi alcançada pelos suspeitos. Duda relatou ter sido abordada e agredida fisicamente, e que um dos celulares usados para registrar a cena foi tomado e arremessado longe pelos agressores antes de eles fugirem do local. O assessor que acompanhava a deputada contou à polícia ter sido segurado por um dos homens enquanto o outro se apoderava do aparelho.
Os ferimentos e o atendimento médico
Depois do episódio, Duda Salabert foi levada a uma unidade de saúde e, em seguida, encaminhada ao Hospital Mater Dei, em Nova Lima, onde exames constataram escoriações por diferentes partes do corpo e uma luxação no ombro direito. Os médicos também levantaram suspeita de fratura em um dos braços da parlamentar, ainda pendente de confirmação por exames complementares, segundo o mesmo levantamento.
A equipe da deputada classificou o episódio como tentativa de homicídio diante da gravidade da abordagem e do fato de os agressores terem perseguido a dupla depois de perceberem que estavam sendo filmados. A leitura da parlamentar é a de que a reação violenta e imediata dos suspeitos, somada à queda durante a fuga, colocou sua vida em risco real, não apenas sua integridade física.
A divergência com a Polícia Militar
Apesar da gravidade descrita pela parlamentar, o boletim de ocorrência registrado inicialmente pela Polícia Militar classificou o caso apenas como lesão corporal, não como tentativa de homicídio. A corporação foi procurada para comentar o episódio, mas informou apenas que, como praxe, não divulga detalhes de ocorrências envolvendo autoridades políticas, sem entrar no mérito da divergência de classificação.
Equipes policiais chegaram a realizar buscas na região logo após a denúncia, mas nenhum dos suspeitos havia sido localizado até a divulgação das primeiras informações sobre o caso, segundo o Diário do Centro do Mundo. A diferença entre a classificação da PM e a da deputada tende a influenciar diretamente o rito de investigação do caso: lesão corporal e tentativa de homicídio seguem procedimentos de apuração com prazos e prioridades distintos dentro do sistema de segurança pública mineiro.
Não é a primeira fiscalização da deputada contra a mineração ilegal
O episódio desta sexta-feira não é um caso isolado na atuação de Duda Salabert. A parlamentar já vinha cobrando providências contra o garimpo irregular na Grande BH havia meses e, em setembro do ano passado, chegou a pedir a instalação de uma CPI na Câmara para investigar fraudes bilionárias associadas à mineração, incluindo esquemas de corrupção em processos de licenciamento ambiental e mineral. O pedido de CPI partiu no mesmo dia em que a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram, em Minas Gerais, a Operação Rejeito, que revelou um esquema de corrupção com participação de empresários, servidores públicos e autoridades ligadas ao setor mineral.
Levantamentos da época mostraram que a organização investigada chegou a usar mais de 60 empresas para viabilizar a devastação ambiental associada à extração irregular de minério no estado, num esquema que arrastava concessões, autorizações ambientais e fiscalização de forma fraudulenta havia anos. A Operação Rejeito é descrita por investigadores como um desdobramento direto da Operação Poeira Vermelha, deflagrada em 2020, que já havia identificado um esquema parecido de extração ilegal de minério na região metropolitana de Belo Horizonte.
Um problema crônico na Grande BH
A área da divisa entre Belo Horizonte e Nova Lima, onde ocorreu a agressão, é historicamente associada a episódios de mineração clandestina, sobretudo de minério de ferro e areia, que driblam o licenciamento ambiental e a fiscalização estadual. Fiscais e deputados estaduais da Assembleia Legislativa de Minas Gerais já haviam realizado inspeções na mesma região metropolitana, incluindo áreas próximas à Serra do Curral, um dos símbolos da paisagem de Belo Horizonte que segue sob pressão de atividades minerárias mesmo depois de decisões que restringiram a exploração comercial no local.
Casos de flagrante de mineração irregular na região já geraram outros episódios de repercussão nos últimos anos, incluindo situações em que equipes de fiscalização relataram resistência armada ou obstrução por parte de responsáveis pelas áreas de extração clandestina. A reincidência desses episódios reforça, na avaliação de autoridades ambientais, a dificuldade de conter a atividade apenas com ações pontuais de fiscalização, sem uma resposta mais estruturada de policiamento na região.
Repercussão e próximos passos
Diante da repercussão do caso, a expectativa é que o boletim de ocorrência registrado pela Polícia Militar seja formalmente contestado pela equipe jurídica da deputada, que pretende insistir na tipificação como tentativa de homicídio. A reclassificação, se aceita pela polícia civil ou pelo Ministério Público, tende a mudar o rito de investigação e a prioridade dada à identificação dos suspeitos, que até a divulgação das primeiras informações sobre o episódio não haviam sido localizados nem identificados.
O caso também deve alimentar novamente o debate sobre a fiscalização da mineração irregular na Região Metropolitana de Belo Horizonte, um tema que Duda Salabert já vinha tratando como prioridade em sua atuação parlamentar antes mesmo da agressão. Para além da apuração criminal sobre o ataque contra a deputada e seu assessor, o episódio reacende a pressão por respostas concretas do estado sobre um problema que, segundo os próprios levantamentos que embasaram o pedido de CPI da parlamentar, já mobilizou dezenas de empresas e volumes bilionários em esquemas de extração ilegal de minério em Minas Gerais.


